Logo o pilha?

Japeri parte da Central do Brasil lotado, como de costume. Para em São Cristóvão e entra um casal bem falante. Encontram um lugar atrás de mim e o conversê rola solto. Falam sobre o temporal que estava se formando, da roupa que ficou no varal, mas que iriam chamar a Rayanne para catar, da pele que tava murcha, do aperto constante dentro do vagão. Quando achavam uma pele crocante, a comemoração era tanta, que voavam farelos no meu cabelo e na minha bolsa. A solução era me sacudir durante todo o trajeto.

Chegamos em Engenho de Dentro e o Japeri resolve aguardar a liberação do tráfego à frente. As reclamações eram as mesmas: “Ahhh, tá de sacanagem, padrinho!”, “Todo dia ele para aqui e fica uns 10 minutos”, “Abre essa porta aí, irmão!”. E o casal falante reforçando o coro.

De repente, toca o telefone da Cida (eu já sabia o nome da moça). E ela, dividindo as informações com os passageiros, fala: “Mentira, Rayanne!!!! (que nessa hora já tinha esquecido de tirar a roupa do varal). ‘Mataropilha’? (mataram o pilha?)”. Seu namorado, incrédulo, resmungava enquanto ela conversava com Rayanne: “Que isso, cara! O pilha? Ele nem era o errado! O errado era o irmão dele, aquele tatuado abusado!”. Cida continuava: “Tu foi lá na casa dele? Tem a foto aí do tiro na cabeça?”. Eu já estava apavorada. Coitado do pilha, era gente boa, pelo visto. O errado era o irmão dele! Daqui a pouco, escuto: “Caraaaaacaa!!! Rogério, olha isso! Coitado do pilha, um só bem no meio do quengo!”.

Nessa hora, eu já queria sair correndo daquele vagão. Cida, provavelmente atordoada, querendo mostrar a foto, cutucou a primeira pessoa que ela viu na frente (adivinha quem?): “Aí, moça! Olha só!”. Quando me virei, vi aquela cena horripilante na tela do celular de Cida. Meu estômago embrulhou, me virei pra frente e fiquei aterrorizada. O Japeri finalmente resolveu partir.

Eu estava amarela, suando frio. Cida e Rogério ligam de volta para Rayanne e falam: “Tu tem mais foto aí, Rayanne? Manda pra mim pra eu mostrar pros amigos do trem aqui!”. Chegou a estação de Madureira. Dei um pulo do vagão, antes que Rayanne enviasse mais fotos. Quando estou passando pela porta, escuto Cida gritar: “Rogério, ele tá sem olho!”.

Desci. As portas fecharam.

Vai com Deus, Pilha.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s